terça-feira, 20 de setembro de 2016

Alhões em 1747


Aspectos de Alhões (c) Nuno Resende / História de Cinfães | 2015
Alhoens. Lugar da Provincia da Beira, Bispado de Lamego, destricto do Douro, Comarca de Barcellos, Concelho de Ferreiros. Tem vinte e tres fógos, e Igreja Paroquial da invocação de S. Pelágio, a de Jesu, e a de Nossa Senhora. Acha-se fundada esta Igreja fóra do povoado, mas pouco distante, em terra aspera, de penedia bruta, nas portas da serra de Monte de Muro, e por esta causa he o clima da terra aspero, e frio; e por isso só produz centeyo, e caça miuda do monte.O Paroco he Cura, e tem de renda quarenta alqueires de pão, vinte almudes de vinho, e seis mil reis em dinheiro, tudo pago pela Comenda da Ermida.

Publicado em Cardoso, Luiz, padre - Diccionario geografico [...]. Lisboa: na Regia Officina Sylviana, e da Academia Real, 1747, p. 306. Disponível em WWW:

Por ser terra «alfabeticamente privilegiada», a paróquia de Alhões integrou o conjunto de verbetes do primeiro (de dois) volumes do Dicionário geográfico, obra antecessora do inquérito posto a circular em 1758. O Grande Terramoto de 1755 destruiu os documentos em que o padre oratoriano Luiz Cardoso trabalhava para a realização deste trabalho enciclopédico sobre lugares de Portugal.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Brevíssima história de uma aldeia: Pias



PARTE I: a Terra.



Topónimo comum em Portugal, Pias é designação de uma povoação na freguesia e município de Cinfães, na margem esquerda da ribeira da Bestança, a sul do rio Douro.
Implantada numa pequena elevação, entre os 150 e 200 metros de altitude, a povoação desenvolveu-se ao longo de uma via que, no sentido oeste-este, cruzava a ribeira de Bestança (afluente do Douro) num ponto transitável (a pé?) da sua corrente. Porém, o caudal imprevisível da ribeira, profundamente violento no inverno, conjugado com a necessidade de assegurar a passagem mais cómoda de homens e veículos, terá motivado a edificação, na Idade Média, de uma ponte.
A primeira e mais antiga referência a esta estrutura (para já conhecida) encontra-se associada a Dona Branca Pais, mulher abastada que deixou ao Cabido do Porto:

«[…] huma quinta em Sima do Douro digo em Riba de Douro onde chamão as pias a cerca da ponte de bastança […]»[1]

E embora o documento que transcreve a doação seja datado de 1576, refere-se a um legado anterior, talvez do século XIV, que assim atesta a antiguidade da travessia (não sabemos se de madeira ou pedra) existente junto às Pias. O próprio topónimo realça a necessidade de vencer a orografia, marcada por pedras escalavradas, barrocos ou perladas [2].
Deve-se pois, à ribeira, à via e à ponte, a existência e prosperidade da povoação, enquanto aldeia-fronteira no termo da paróquia/freguesia e município de Cinfães.
Em 1527 era lugar pequeno, comparado com Travaços, Bouças e Louredo [3]. Enquanto estes lugares tinham acima de vinte moradores (fogos), Pias contava apenas cinco. Talvez assim se compreenda porque não é referida em 1258, juntamente com outras localidades do termo de Cinfães [4] - estaria então a formar-se como núcleo habitacional?
É possível que o incremento demográfico de Pias ocorrido ao longo da medievalidade e da época moderna se deva ao facto de ser lugar de passagem, documentado pelo seu urbanismo unilinear (ver imagem 2). Também Louredo, no extremo nascente do concelho, se destacava pela sua localização junto a uma ponte, de origem medieval, ainda hoje conservada e juntamente com Pias, ambos os lugares como percursos intermédios de uma via paralela ao Douro.

Vista aérea de Pias (recortada a partir de Google Maps) onde se vê claramente a via ou «rua» que deu origem à povoação, de sinuosidade medieval.

 Da época moderna, período de vida económica fervilhante na região duriense, voltamos a ter notícias da travessia – importantes notícias, aliás, que atestam a importância do lugar e da sua ponte.
Efectivamente manuscrito de Frei Teodoro de Melo, datado de 1733, dá conta da destruição, por uma «enchente», de uma «formosa ponte de cantaria», «de próximo reedificada, por ter levado uma cheia a que no mesmo sítio das Pias se havia fabricado antes». A reedificação dera-se quarenta anos «pouco mais ou menos» (antes da memória do autor) e foi-o a expensas do Morgado de Velude, nobre e proprietário de Cinfães, «instando pela utilidade pública»[5].
Assim, em finais do século XVII, a ter existido uma ponte medieval (românica?) sobre ao Bestança, junto a Pias, foi a mesma destruída por uma cheia, tendo sido substituída por outra no século XX, aquando da abertura e construção da estrada nacional 222.
 Em 1758 o abade de Cinfães, certamente por esquecimento, não refere a ponte que é no entanto assinalada pelo seu congénere de Oliveira do Douro, quando alude aos cursos de água da região:

«[…] o Ribeyro chamado Bestança que tem Sua orige na freguezia de Tendais, e Se vem despinhando pella Freguezia de Sam Pedro de Ferreyros, e Fica correndo o dito Ribeyro para o Rio Douro entre Symfaiz, e esta Freguezia de oliveyra, que o mesmo fás Reparticçáo das ditas Freguezias, e nelle há huma Ponte de Pedra no fim de Boassas cittio do Lugar das Pias […]»[6]

Não obstante o lapso o reitor de Cinfães, Heitor Pereira Cardoso assinala o lugar das Pias, associando-o a Vila Pouca, ambos com 46 fogos – o terceiro «lugar» em população da freguesia e município, a seguir a Vila Viçosa, Travassos e Bouças [7].
No século XVIII o outrora pequeno lugar tornara-se povoação importante e atractiva para pobres e ricos, remediados e abastados, povo e nobreza, leigos e clérigos, como o padre Manuel Pereira que em 1758 administrava aqui uma «ermida» titulada a São Gonçalo, venerável associado a caminhos e …pontes.

Nuno Resende 



NOTAS


[1] - Arquivo Distrital do Porto (ADP), Cabido, Datário, fl. 35 v.º
[2] - Barrocos e perladas ou preladas (veja-se o topónimo bem próximo às Pias, em Ferreiros de Tendais) são designações vernaculares para lugares associados a rios e ribeiras, onde há poços, pedras de formas extravagantes e até sons peculiares que motivavam a memória e sobrevivência dos topónimos.
[3] - Collaço, João Tello de Magalhães - Cadastro da População do Reino (1527). Lisboa: [edição do autor], 1931.
[4] - Baião, António, org. - Portvgaliae monvmenta historica [...]: Inquisitiones [vol. I, parte II, fascículo VII]. Lisboa: [s.e.], 1936.
[5] - Documento transcrito e citado em: Duarte, Joaquim Correia - Resende no século XVIII. [s.l.]: Câmara Municipal de Resende, 2004, p. 309
[6] - Teixeira, Baltazar Manuel de Carvalho Pinto - Oliveira do Douro [Memória Paroquial de]. Lisboa: IAN/TT, 1758.
[7] - Cardoso, Heitor Pereira - Cinfães [Memória Paroquial de]. Lisboa: IAN/TT, 1758.

Speech by ReadSpeaker