domingo, 21 de dezembro de 2014

Obras embargadas: edifícios incabados no concelho de Cinfães.

Em Cinfães, como de resto de de Norte a Sul de Portugal, são frequentes os exemplos de casas nobres e outras estruturas (geralmente de média ou grande dimensão) cujo projecto inicial não chegou a ser cumprido. Não constituindo, como é óbvio, uma tipologia, testemunham, todavia, uma conjuntura e documentam as contrariedades dos seus proprietários ou encomendadores. Mas pouco se sabe, ainda, de um ponto de vista coletivo e conjuntural, sobre tais circunstâncias. 

No território do actual município de Cinfães existem vários exemplares cuja cronologia de construção se baliza entre a segunda metade do século XVIII e a instauração definitiva da monarquia liberal (1834),  como a casa de Castro de Cio (em Ferreiros de Tendais) a casa da Capela em Aveloso (Tendais) ou o santuário do Senhor dos Desamparados (Fundoais, Oliveira do Douro. 
Como explicar tal interrupção construtiva? Factores económicos ou familiares? ou tal circunstância derivou da escassez de mão-de-obra e materiais ou mesmo de implicações decorrentes da implantação da estrutura num determinado espaço – o que poderia ter ocasionado a cessação do projecto?

Deixamos, pois, aqui alguns exemplos destas obras embargadas que podem testemunhar, através das suas expressivas ruínas, os revezes económicos e sociais de uma época:


Santuário do Senhor dos Desamparados
Termo do lugar de Fundoais
F. de Oliveira do Douro
Iniciada a edificação por volta de 1730, em 1758 já era referido como ermida-santuário implantada no Monte Calvário. Deverá datar daquele intervalo a edificação da capela-mor que permaneceu como leitura parcial de um projecto maior. Efectivamente, na posição do edifício em relação à encosta desenha-se a ideia de um santuário barroco, enquadrado talvez por um escadório ou percurso ascensional que a orografia permite.
Não obstante o claro investimento no edifício que a arquitectura e o acervo escultório (talha e escultura de vulto) expressam, a ermida permaneceu aquém da sua planta final: capela-mor e corpo com duas naves - das quais apenas restam os arranques dos arcos dos tramos.
A paragem das obras pode dever-se a uma má administração da Confraria cujo livro de Contas de meados do século XVIII revela uma notável movimentação creditícia. As Confrarias e Irmandades assumiam, junto das comunidades rurais, o papel de bancos, emprestando dinheiro a juros - o que constituía naturalmente, e dada a inconstância do culto e da devoção, um risco sempre eminente.




Casa de Castro de Cio
Sítio de Castro de Cio
F. de Ferreiros de Tendais
Lugar já referido em 1527 (Crasto de çio) com 5 moradores deverá ter constituído lugar de implantanção de uma quintã - propriedade senhorial que no século XVIII era habitada pela família Pinto Lacerda. Este notável clã prosperou regionalmente através do acesso às magistraturas locais e de proveitosos casamentos com outras famílias da nobreza do Douro.
A casa actual parece testemunhar os propósitos de ostentação dos Lacerdas na segunda metade de setecentos: a vistosa pedra de armas na fachada e a escadaria de acesso ao andar nobre fornecem-nos elementos sobre a grandiosidade do projecto, inacabado.
Talvez o clima político de finais do século XVIII, a deslocalização dos principais elementos da família ou ausência de recursos possam ter influído nesta paragem. Alguns membros da família como o Dr. Quintiliano José de Pontes Lacerda ( nascido em 1698) eram devedores de outras casas e instituições creditícias locais, como a casa de Revogato, em Oliveira do Douro.
A actual estrutura deve ter sido edificada durante a vida do filho primogénito do referido doutor Quintiliano (procurador da Casa de Bragança nos Concelhos de Ferreiros e Tendais), o também doutor Bernardino António Correia Pinto de Lacerda (1728-1794)
Pela zona envolvente à casa são visíveis os sinais de abandono da obra: blocos semi-talhados espalhados aleatoriamente pelo terreno.



Casa da Capela 
Aveloso
F. de Tendais
Embora sem dados documentais que associem a casa actual à família ou indivíduo fundador, podemos conjecturar que ela estaria, no século XVIII - centúria da sua fundação - nas mãos dos Morgados de Aveloso. Vasta família, constituiu, a partir do casamento de José de Resende (1749-1821) com Custódia Maria dos Santos (1761-1847) um dos mais ricos e poderosos clãs da região que no entanto sofreram os revezes da mudança de regime, pois a maior parte dos seus elementos associava-se ao partido de D. Miguel.
É provável que o que se delineava projecto maior tivesse permanecido incabado devido às vicissitudes, primeiro das invasões francesas (1809) e depois da guerra civil (1828-1834)
De facto, sendo o referido José de Resende um dos maiores credores da região na viragem do século XVIII para o século XIX a circunstância da desvalorização do ouro ocasionada pelo panorama ideológico da Europa de 1803 a 1815 e as perseguições que a família sofreu pela adesão ao absolutismo, podem ter influído na paragem abrupta das obras da sua casa de Aveloso.
São ainda hoje visíveis os arranques de uma segunda fase construtiva que nunca chegou a ser concluída, destacando-se da primeira a ingénua expressão de um gosto barroco local, plasmado no desenho da janela de avental.

BIBLIOGRAFIA
Resende, Nuno - Retratos da Terra e de Família. Porto: Câmara Municipal de Cinfães, 1997.
Resende, Nuno - Vínculos quebrantáveis. Coimbra: Palimage, 2012. 978-989-703-052-9

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