quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Papiano Carlos (1918-2012)

Bustelo e a sua lage
Papiniano Carlos, representante da corrente literária neo-realista, faleceu hoje aos 98 anos, na cidade do Porto. A sua ligação a Cinfães era conhecida pelo conto "A aldeia longínqua", centrada numa povoação-imaginada, mas bem real nas condições, muitas delas permanecentes como marca de uma culturalidade difícil de despir. Aqui fica, pois umm excerto deste conto, tão actual como quando Papiano Carlos o escreveu (1946).

A estrada oferece ainda o seu leito amarelo, de saibro batido - mas resta ao abandono, e até os lobos a desprezam nas noites de breu, em que vêm uivar nas cumieiras desoladas.
E Bustelo, a que veio inalterável desde o fundo dos tempos, esmagada debaixo do peso ecessivo daquele céu, até ao dia em que o mundo a foi inquietar, sem lhe dar remédio, torna, em silêncio, ao desamparo de sempre. Apesar dos postes esguios que se perfilam adormecidos, segurando fios que inútilmente seguem para a cidade longínqua, e da estrada que as chuvas começam a esbarrondar, - Bustelo está ali pasmada, mais pasmada que nunca, ao fundo do buraco onde nasceu.
Tornam os lobos, a uivar dolorosamente nas noites longas de Inverno.
Tornam os homens a fecundar os ventres das mulheres, ao fim de cada parto, e a erguer os braços para fincar as mãos de encontro àquele véu inexoràvelmente baixo.
Tornam os bandos de pombos bravos - a deixar-lhes nos olhos uma mensagem insolúvel.
Torna o horizonte a fechar-se em volta - e Bustelo ali fica pasmada mesmo no cabo do mundo. E espera entretanto.

Papiniano Carlos,  Terra com sede, 2.ª edição (1969).

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