quarta-feira, 27 de junho de 2012

Muralhas das Portas


Cinfães, Alhões

O rectângulo a vermelho indica vestígios da muralha ainda visíveis


As ruínas da muralhas sitas próxima às Portas de Montemuro, entre as freguesias de Alhões e Ester e na divisão dos concelhos de Cinfães e Castro Daire, constituem provavelmente um dos melhores e maiores exemplares conhecidos de uma estrutura destinada especificamente à defesa da linha do Douro no período da Reconquista. Embora a maioria dos autores, desde Amorim Girão (1940)[1], João de Almeida (1943)[2], João Silva (1963)[3] e J. Inês Vaz (1986)[4] tivessem sugerido, quer a fábrica castreja, quer a organização daquele espaço pelos Romanos, o certo é que o carácter inacabado da construção, a ausência de traçado urbanístico e o posicionamento roqueiro estratégico (do local avista-se o maciço da Estrela), apontam para o resultado de uma situação bélica transitória. Somos, por isso, incitados a aceitar a teoria de um investigador local, Arnaldo Rocha [5] que em artigo de 1992 imputou aos contendores do período pré ou pós Reconquista o planeamento e edificação desta estrutura, posicionando-a cronologicamente entre os séculos VIII e XI. Afinando um pouco mais esta datação, diríamos (apontando exemplos conhecidos para a zona de Leão) que a muralha das Portas (com um perímetro de cerca de 1500 metros quadrados) serviu o avanço cristão por volta do ano mil, quando o Douro foi transposto pelos cristão e os castelos de São Martinho e Lamego (na encosta norte do Montemuro) foram tomados por Fernando I, em 1057. É assim provável que, escolhendo um local estratégico, num dos pontos mais elevados da serra de Montemuro (ela própria uma muralha) à cabeceira de um vale de fractura, os exércitos cristãos tenham iniciado uma fortaleza ou atalaia como forma de consolidar as posições a sul do Douro e que tal obra, mercê da rápida tomada da Beira (demorou apenas um ano a tomar Viseu, depois da cidade de Lamego) ficasse incompleta.
Trata-se de um singular exemplar de arquitectura militar que, pelo seu significado histórico, simboliza o apaziguar da região e a abertura às novas correntes artísticas.
Infelizmente desde que se multiplicaram as estradas de acesso para acesso às torres eólicas este património (não obstante a sua classificação) tem vindo a ser alvo de constantes agressões.

NOTAS

domingo, 10 de junho de 2012

Um tributo aos "senhores" do rio.

Octávio L. Filgueiras, Escamarão, 1956

Se grande parte do actual município de Cinfães viveu da serra, a outra dependeu do rio.
Na foto o lançamento de um rabão carvoeiro, fotografia de Octávio Lixa Filgueiras, colhida no Escamarão, 1956 (publicada em Filgueiras, Octávio Lixa- A propósito da protecção mágica dos barcos. Lisboa: Centro de Estudos da Marinha, 1978.)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Uma fotografia literária.

Cozinha de habitação cinfanense, 2012. (C) Nuno Resende
Um só aposento, acanhado e imundo, frio como um in pace, e que a noite parece ter forrado todo com pedaços do treva. O sobrado, de largas tábuas de castanho, repelindo-se hostilmente, é mole, e falso como o lodo. Cobrem as tábuas espessíssimos estratos de um mixto singular de poeira, lama, água e detritos orgânicos, escorregadio e pérfido, todo orografado em saliências altas como serras, em abismos gretados e torvos, lembrando o revolto planisfério da lua... aqui áspero como lixa, além untuoso como o talco, acolá instável como um pântano, ali duro e polido como a lousa... mais difícil certamente de pisar sem risco iminente de queda do que esses pavimentos axaroados dos salões aristocráticos de Yeddo.
E um dos laços mais perigosos armados pelo serrano contra o habitante da cidade, o sobrado do seu casebre. A bota nada pode com ele; só o amplo tamanco ferrado é capaz de o dominar.
Pois tinha destas cordilheiras gordurosas a nossa casa de Aveloso. A direita da porta de entrada acumulavam-se em desordem uma cadeira de pau, um escabelo, um ancinho desdentado, três enormes chocalhos de cobre para gado, e uma foice roçadoira; de encontro à parede contígua, duas enormes arcas de carvalho, altas como homens e amplas como toneis, cambadas e ciclópicas, com os braços das fechaduras pendentes como orelhas de um velho quadrúpede estropiado, guardavam religiosamente, de séculos, as colheitas anuais da batata e do centeio; na parede seguinte, frente à porta, dois exíguos beliches, à ilharga um do outro, separados da sala por uns fumados tabiques de pinho, alojavam dois catres asquerosos, verdadeiro asilo da porcaria, conúbio inviolável de mil coisas esfarrapadas, gordas e repugnantes, que a luz nunca ousara tocar, e cujo só aspecto despertava visões aterradores de intoleráveis suplícios de sucção; depois, ao terceiro muro, o da esquerda, encostava a lareira, flanqueada por dois longos bancos de pinho, ressequidos e hirtos como troncos de árvores de floresta por onde tivesse lavrado um incêndio. A esquerda da porta, uma mesa cambaleante sustentava loiças de barro vidrado ou negro, de formas rudimentares; do tecto fuliginoso, deixando ver o reverso das telhas, pendem dois presuntos e algumas peças de fumeiro; e o forno a um ângulo da casa, e a gamela do pão junto à muralha, e a dobadoira ali ao meio, e uma prateleira pejada de pequeninos queijos, e os panos de serguilha, e as mantas de lã, e os promontórios da boroa, e os cajados, e a grande talha de barro com o azeite, e a panela com as cinzas, e a caixa dos ovos, e a do sal, e muitos outros miúdos objectos matizando e atravacando aquele recinto lôbrego e desconfortável, dando-lhe a fisionomia própria, o tom particular.
E havia ainda, lutuosamente pesando por toda a parte, essa côr fumada e mortal que nas longas veladas de inverno vai assentando a combustão incompleta e lenta dos enormes brasidos da lareira.

Abel Botelo, Mulheres da Beira, da Colecção Lusitânia. Sobre Abel Botelho ver o que escrevemos aqui.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

À volta dos "pelourinhos" de Tendais.

 Pseudo-pelourinho de Tendais (1997), lugar de Enxidrô
[foto de Nuno Resende (c) todos os direitos reservados]

Na segunda edição do livro do sr. Eurico de Ataíde Malafaia, Pelourinhos Portugueses, publicado pela Imprensa nacional da Casa da Moeda em 2005, vem indicado como pelourinho de Ferreiros de Tendais, uma coluna que foi içada em 1997 à beira da estrada no lugar de Enchidrou (a grafia é do mesmo autor). Ora nem este pilar teve alguma vez a função de pelourinho, nem Enchidrou se situa ou situou alguma vez no concelho de Ferreiros de Tendais. O lugar chamado Enxidrô situa-se no termo da freguesia de Tendais e integrou o extinto concelho com o mesmo nome e limites, que alçou a sua picota no lugar de Quinhão, junto à igreja matriz, próximo do adro, como convinha a castigos públicos que se praticavam nos pelourinhos. O que resta do pelourinho de Tendais, fomos encontrá-lo em 2000, metade a servir de esteio ao portão de uma habitação particular e a outra parte arrumada numa corte, então a ser desmantelada. E era este o seu estado.


 Presentemente desconhecemos o destino destas pedras que, compostas, deveriam constituir um pelourinho do período manuelino, muito semelhante ao do próximo concelho do Rossão:

[Fotografia extraída de: Correia, Alberto; Alves, Alexandre; Vaz, João Inês- Castro Daire. Viseu: Câmara Municipal de Castro Daire, 1995.]

Sobre o paradeiro do pelourinho de Ferreiros de Tendais - que poderia estar localizado nas imediações da igreja, como em Tendais - nada sabemos. O único original, tido como pelourinho do concelho de Sanfins, é o de Nespereira. O da vila é uma reconstituição livre do século XX, pois deveria estar nas proximidades da casa de audiências primitiva, abaixo de Minhoso e á vista da velha igreja matriz. Oportunamente voltaremos a este assunto.

Speech by ReadSpeaker