sábado, 26 de fevereiro de 2011

Proximidades: a "alagoa" de D. João.


Esta montagem fotográfica foi feita em 1996 quando, durante a preparação de um projecto turístico literário para o Montemuro, passei pela Alagoa de D. João. A magnífica depressão, alagadiça e coberta por um manto de várias espécies erváceas e arbustivas, localizada não muito distante da Gralheira e da Panchorra, foi mencionada a voo de pássaro por Eça de Queirós no romance O Crime do Padre Amaro e, com maior rigor, por Abel Botelho no seu conto A Fritada. Em breve aquela magnífica paisagem perderá o aspecto pacífico e selvagem, com a construção de um novo parque eólico. Para memória futura, aqui ficam a fotografias e as palavras de Abel Botelho, a avisar que um dia precisaremos mais da natureza do que hoje da energia que à força lhe retiramos:

"Avançavam cautelosamente per um terreno alagadiço e molle, coberto de herva rasteira e miudinha, e ondes fartas poças de lôdo armavam não raro aos viajantes descuidosos traiçoeiras armadilhas. Era o dorso da Gralheira. Para a esquerda, grande agglomerações caprichosas de urgueiras, verdes e arbustivas, em bellas formações conicas, vegetavam por entre as penhas escalvadas, n'essa promiscuidade gelada dos mausoleus e dos cyprestes n'um vasto cemiterio. Á direita, o terreno deprimia-se gradualmente em desniveis sucessivos, tapetados com abundancia de urzes, de fetos rusticos e de urgueiras, cujo verde, de tons suavemente graduados, marcava nitidamente a espaços a flôr avelludada, amarella ou branca, do sargaço; depois continuava-se n'uma estirada sequencia de valles e corcovas até junto á bacia estreita do Douro, de cujos aprumados contraforeste se avistavam as cristas magestosas, e para além da qual se alteava ainda, azulada e indecisa, a serra do Marão. Na frente, a recortarem-se firmes no azul embaciado de agosto, com uma tinta luminosa e fresca de aguarella, montões gigantes de calhaus pardos de granito, assumindo os mais phantasticos perfis: castellos feudaes arruinados, com torres esborôadas, fossos, barbacans; novellos enormes e redondos, pacientemente dobrados polos seculos; anachoretas esguios, orando curvos e de joelhos, o livro à frente, poisado sobre uma caveira. Ainda na frente, a grande distancia, com o contorno suavisado pola espessura da atmosphera interposta, uma pyramide geodesica de 1.ª ordem, liliputiana, ridicula, mal segura, assentava no craneo angulos d'um cabeço."
BOTELHO, Abel - Mulheres da Beira (contos). Lisboa: Empreza Litteraria Lisbonense, 1898, 147-148.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Um romancista de Cinfães: Guido de Monterey.

Jornal Miradouro, ano 62, n.º 1699, 3.ª série, 25-02-2011, fl. 1


Hoje (25-02-2011), o jornal Miradouro, órgão da imprensa que tem defendido os interesses locais e regionais, brindou-nos com uma imagem do escritor Guido de Monterey, fazendo alusão à sua condição de autor adorado ou detestado. Estou em crer que ninguém de bem "detestará" o sr. Guido de Monterey, dado que é, com certeza, benquisto na sua comunidade e querido pela maioria dos cinfanenses que se habituaram às suas crónicas jornalísticas ou aos seus livros, vendidos por todo o lado, desde livraria a retrosarias. Devo lembrar, aliás, que o primeiro livro que li sobre Cinfães e que despertou em mim o interesse por querer saber mais sobre a minha terra foi o Terras ao Léu: Cinfães.
Os livros de Guido de Monterey, sempre edições do próprio autor, vibram desde a capa até à última página do miolo, por serem profundamente garridos no seu desenho e adjectivados na sua linguagem. De resto, a obra deste escritor, publicista, monógrafo, etc, natural de S. Cristóvão de Nogueira é fecundíssima. Poucos regionalistas da palavra escreveram tanto em tão pouco tempo, editando, lavrando polémicas, guiando turistas por montes e vales, ilhas e cidades e fazendo por escrever história a partir do seu jardim. A sua biografia pode ler-se em várias páginas de grande parte da sua obra, sobretudo a que diz respeito às tais monografias de Cinfães. Quando escreve sobre Cinfães, Guido de Monterey (ou José Rosário Guisande, seu heterónimo) põe sempre algo de si e dos seus nos ensaios e livros que frequentemente inaugura. É famoso, por exemplo, por ilustrar qualquer narrativa com as suas estrelas, estrelinhas e flores, metáforas para as personagens femininas que o marcaram ao longo da sua vida.
Em 1944 passou pelo Seminário Menor, em 1947, pelo Seminário Maior de Lamego e, tendo tentando a Universidade (curso de Direito), logo desistiu, tornando-se um autodidacta da escrita. Num tempo em que a escrita, fosse ela profissional ou meramente recreativa, estava vedado à maioria, Guido de Monterey destacou-se na produção literária do tipo regionalista. Devem-se-lhe páginas realistas de novelas como "Os Bêbados", "Os Penduras", etc, focando tipos e cenários próximos ao autor. No âmbito da História, Guido de Monterey, como se sabe, não é historiador. Como muitos amadores que ao longo dos anos 70, 80 e 90 criaram uma quase escola de monógrafos locais, foi desenvolvendo trabalhos metodologicamente nulos e cientificamente incipientes, que misturam lendas com factos, documentos com divagações pessoais, criando más interpretações e, sobretudo, contribuindo para que a História, já de si complexa, dificilmente seja "lida" por qualquer cidadão, de forma clara e compreensível.
Cabe, porém, destacar a tenacidade do autor e, sobretudo, a sua versatilidade que tem na obra novelística o seu interesse maior e mais grado, quanto a nós. E, infelizmente, nestes quase 70 anos de produção, nunca o município, na pessoa dos seus Presidentes ou da edilidade deu o devido valor à obra deste romancista. Enfim, quando a cultura é um estorvo, tudo atrapalha.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Bibliografia cinfanense #8

 CARDOSO, Manuel - Ó linda Chã (Ferreiros de Tendais - Cinfães). Poemas. [Lamego]: [edição de autor], 1996.

Todas as terras têm o seu poeta. Desde tempos imemoriais, pelo menos desde que o Homem articulou os primeiros sons, que a linguagem cedo terá passado pela poesia, pela mnemónica  - ou seja pela repetição poética de certos acontecimentos. De certa forma, os primeiros historiadores terão sido poetas, recordando eventos e imortalizando cenas de amor, tragédia ou heroicidade. 
Cinfães contará, certamente com um punhado considerável de poetas e poetisas que ao longo dos anos musicaram a labuta com canções herdadas ou de improviso. Nem todas escaparam à morte das gerações, ou ao esquecimento do momento que as tornou efémeras. Felizmente que alguns poetas, como Manuel Cardoso, natural do lugar de Chã, freguesia de Ferreiros de Tendais, deixaram para a posteridade a sua obra. Mais ainda tratando-se de um homem de vários lavores, que cedo deixou a sua terra para procurar ofício  na cidade do Porto. Sabido é que a saudade exalta a veia poética. Talvez tenha começado assim.
O livro de poesia "Ó linda Chã", editado em 1996, com prefácio, selecção e revisão do romancista Guido de Monterey, reúne 154 poemas, quadras que falam sobre saudades, pessoas, casos, lendas, lugares. Não podemos de deixar de assinalar, em tópicos, a semelhança ao livro já aqui citado, Musa Sinfanense. Embora distantes um do outro em quase um século, ambos falam da ausência e da distância.
O livro abre com um prefácio de Guido de Monterey e com um breve texto biográfico, também deste autor. Por ele ficamos a saber que Manuel Cardoso apesar de nascido em Trás-os-Montes, radicada a sua ascendência por terras de Chã. Depois de uma passagem pelo Brasil (o destino de tantos cinfanenses ao longo dos séculos XIX e XX), Manuel Cardoso aprendeu na casa de São José do Porto o ofício de Sapateiro e por aí se fixou, fazendo carreira na famosa Sapataria Pessoa, casa de afamada reputação comercial da cidade que, na iminência de fechar foi adquirida por este industrioso cinfanense. Manuel Cardoso faleceu a 30 de Abril de 1995, sendo o seu corpo transportado até à sua freguesia "natal", Ferreiros de Tendais, onde jaz contemplando a terra que cantou.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O nome Cinfães.

Uma leitora do site "História de Cinfães" questionou-nos sobre porque razão se escreve Cinfães e não Sinfães. De facto a segunda grafia foi, sobretudo, utilizada no século XX, nas variantes Sinfães e Sinfains. Mas erróneamente, já que vinha cortar com uma tradição etimológica medieval e moderna: em 1258, Cinfaes, em 1527, Cynfanes, etc. É com "c" que se faz este topónimo. Passemos a palavra ao etimologista e toponomista, o Doutor A. Almeida Fernandes:

Cinfães: O povoamento nos inícios nacionais, ou seja, de que resultou a povoação actual, fez-se por casais e deu o "burgo", como a Cinfães (Sinfães é escrita errónea) se chamava, hoje a vila desde esse tempo. A origem mais longínqua é uma "villa" Qiff(i)anis, de Qiff(il)a, tendo a nasal final provocado a nasalação, Qin-, que é a que hoje temos, Cin- sobre o concelho e a vila, ver o meu art. Gr.[ande] Enc.[iclopédia Portuguesa e Brasileira], vol. 29, pp. 149-160. (ver 1258 IS 972: " ecclesia de Cinfanes de terra de Sancto Salvatores" estava sob o padroado das ordens do Tempo e do Hospital", e lê-se em IS 973 que "quintana de Sancta Ovaya (Eulália) e "villa de Egregioo et villa de Tuberaes et Portela et Casali et villa de Berudi et Villa Nova et Lauredo de Matto et Lauredo de Jusao et Lauredo de Susao et villa de Cinfaes fuerunt de honor de donno Menendo Moniz" (D. Mem Moniz irmão de Egas Moniz, que com ela compartia segundo as inquirições de 1288. [....]

FERNANDES, A. de Almeida - "Povoações do Distrito de Viseu (origens). Cinfães. Beira Alta, Assembleia Distrital de Viseu, Viseu, vol LXI (2002), 14.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Bibliografia cinfanense: Cinfães. Subsídios para uma Monografia do Concelho, 1954


Disponibilizámos, via facebook, a digitalização de todo o material gráfico publicado em GUIMARÃES, Bertino Daciano R. S. - Cinfães (Subsídios para uma monografia do concelho). Porto: Junta de Província do Douro Litoral, 1954. Trata-se da primeira obra monográfica sobre o município de Cinfães pós-1855. Embora tenha sido escrita com o espírito do Estado Novo, privilegiando, por exemplo, as tradições populares e o folclorismo, consegue reunir um interessante conjunto de documentos históricos, não obstante o seu carácter avulso e, por vezes, cronologicamente descontextualizado. Interessa, sobretudo, o acervo fotográfico publicado (cujos originais desconhecemos o paradeiro) (*), por testemunhar uma época e permitir a caracterização de elementos estruturais arquitectónicos e paisagísticos entretanto desaparecidos. Esta monografia foi confiada a um obscuro publicista e musicólogo do Porto, chamado Bertino Daciano Rocha da Silva Guimarães (nasc. 10-11-1901). Licenciado em Ciências Económicas e Financeira, Bertino Daciano foi professor da Escola Comercial Mousinho da Silveira e director do Instituto de Cegos do Porto. A sua obra é vasta, e entre os vários títulos publicados entre 1921 e 1957, contam-se algumas monografias locais, decerto trabalhos encomendados pela Junta de Província do Douro Litoral que, como todas as congéneres, pretendia estimular sobretudo os estudos etnográficos, tão ao gosto da Ditadura. O frontispício do exemplar que reproduzimos e que integra o acervo da nossa biblioteca, pertenceu a Guilherme Giese, um linguista alemão, especialista em estudos ibéricos, a quem a Junta de Província ofereceu este exemplar, talvez numa das deslocações de Giese ao nosso país.
*Nota: as fotografias foram tiradas ou pertenciam a Nicolau Pinto (fotógrafo profissional de Cinfães), Júlio Bertino (Porto), Jaime de Castro Pinto Bravo  e Dr. Armando de Mattos, etnógrafo ligado à Junta de Província do Douro Litoral.

Património religioso de Cinfães: pagela de Nossa Senhora dos Prazeres.


Três patrimónios: o Património Móvel, o Imóvel e Imaterial. A pagela (com uma belíssima cercadura em estilo Arte Nova); o santuário da Senhora dos Prazeres ou do Senhor dos Enfermos em Macieira (Fornelos) e o culto. Colecção de N.R. É proibida a reprodução não autorizada desta imagem.

Em epígrafe: NOSSA SENHORA DOS PRAZERES / de muitos milagres que se venera na Capela de Macieira / freguesia de Fornelos, concelho de Sinfães; 31,5x21,9 cm, processo litográfico sobre papel [pap. e tipografia Leonesa, Porto], c. 1930?.

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